26 dezembro 2015

Com sol, sem cor.

Mas tudo é pendular 
Tudo é escuridão 
Mas também sorriso
Tudo é um pouco de mim 
Mas também extrapola a pele 
Um tanto de todos 
Mas também barro e pedra 
Quero saber o intervalo 
Quero estar no invisível 
O desejo lascivo, laico das madrugadas 
A perturbação sábia da virada do amor
... e dos dias em horas de deuses. 
Quero ser a imaginação científica 
A teoria nova
O definhar do claudicante paradigma 
A figura ainda sem reflexo
Mas já vista por todas as gentes. 
Quero o desenhar do movimento 
Conhecer o lapso
Entre intento e gozo 
A cor verdadeira de cada Sol. 
Mas é tudo tão pendular... 
De tão impertinente, 
Em palavras e meios, comemoro! 


01 novembro 2015

Novembro

Como o velho que faz a primeira tatuagem 
- enviado , por natureza, às águas da liberdade
Canto minhas histórias em versos primitivos
E, a partir do espírito inflamado e combativo, 
- o troço sem substância que mais arde 
Que refaço, com uma deidade renovadora, outra minha imagem. 
[mais uma mais sorriso mais dor]
Riscada no éter do lembrar-se afetivo inventivo 
- agulhas e tinta vivas, velha carne 
Ao discurso normativo, devo pedir passagem, outra linguagem. 
Com a minha cacofonia de símbolos...
Um caleidoscópio de muitas primeiras imagens. 

21 outubro 2015

O beijo de amanhã

Mande-me um beijo
Um cheiro 
Um alívio da vontade 
Uma foto de sorriso 
Uma palavra colorida 
Mande-me um beijo
Um pouco de saliva
Um aperto 
O desejo de olho 
Um chá de querer bem...
Mande-me um beijo
Se mande pra dentro de mim
Me perca em sua pele 
Deixe marcas invisíveis 
Mostre alegria em toda parte 
Mande-me um beijo 
Uma página qualquer 
Qualquer letra mal escrita 
Um sol sem soledade 
Um verso que extirpe a saudade. 
Mande-me um beijo
Num acorde 
Num "bom dia"  de chuva 
Numa flecha 
Numa mandinga displicente. 
Mande-me um beijo 
Com seu perfume 
Com suas inquietações 
Mande tudo com astromélias  e lírios 
E terei arranjos de você.

06 outubro 2015

Mais tempo

A busca por mais tempo
À procura de mais encontros
É o tempo da pedra 
Da folha e da poeira do chão 
Do momento deificado
E da brecha no instante. 
É o sorriso quando escapa dos lábios 
Extrapola o movimento 
Arregaça a inércia da mente
E transforma a miopia dos ouvidos
Num diálogo de olhos embebidos - 
à meia luz.  
A busca por mais tempo 
E de outras tantas novas fotografias 
É o tempo da luz 
Das horas e das flores da calçada 
Do barco apontado para o poente
Em dias de poucas nuvens 
E vermelho leve no cansar do dia. 
É a procura por sentido
Numa inconsciência de borboletas 
Que produz beleza 
Que surge doída
Que voa bendita
Que morre em seguida. 
A busca por mais tempo 
É o amor pulsando vivo
No lapso do olhar 
Na incompreensão das velhas letras. 

16 agosto 2015

Viva ao rei!

Quando se deitam, final, os mortos
Os rotos objetos caem da minha altura 
Cessam reminiscências e projéteis 
Na espiral que me mantinha torto 

Quando se deitam, final, os mortos 
Uma clareira se abre na perspectiva 
O primeiro se identifica com os demais 
E a turba de iguais me arranca do conforto

Quando se deitam, final, os mortos
Os cordéis do títere são expostos   
E é possível ver atrás do espelho
Desejo minha vontade sem esforço 

Quando se deitam, final, os mortos 
Estes vívidos brilhos de outrora 
Não mais se manifestarão sem outorga
No auto de resiliência que transcorro

Quando se deitam, final, os mortos 
A culpa some e tudo é novo 
Um frescor nas veias [tudo é novo]
Os olhos se abrem... do mar ao porto. 

12 agosto 2015

Embriaga

A sua voz me embriaga
Enche meus poros de sentimentos 
Confunde meus órgãos 
Faz-me flertar com adagas 

É uma algazarra de estímulos 
Quando vejo já deixei o chão 
Quando sinto há muito estou entregue
Quando falo nem pareço tão tímido 

A sua pele me embriaga 
Passo com veludo na voz 
Meus pensamentos caem como seda
Na lâmina afiada que me afaga

Uma devassa nos meus sentidos
Se ouço não posso tocar
Sinto o cheiro e não é da mesma cor
Dos lábios que me deixaram aturdido.

O seu espírito me embriaga
Preenche a tela com falsetes 
Você cria jeito, força e modo 
De arrancar de mim o que me agrada

Você me embriaga
Eu lhe oferto amplidão. 

07 agosto 2015

Dos danos.

Depois dos danos morais 
Colho, impiedosamente, o dano astral.
Devolvi minha alma...
Hoje não tem sol para os irracionais.

Os signos, os signos, os símbolos! 

Se o erro do cálculo jaz em si mesmo, 
É nesse risco que se dará a ampliação.
Se "fazer o incauto" pode te levar à loucura, 
Fazer o pragmático não me livrará do alçapão. 

As tramas, os dramas, as sombras humanas! 

Misantropo, alguém grita. 
Petulante, outro sussurra pelos cantos da boca. 
Olho pra baixo e tento ver de onde saíram... 
Mas é só meu acervo de máscaras delirantes e vozes roucas 

As personagens, o coro, uma tragédia! 

Depois dos danos morais 
Aceito, miseravelmente, o dano cerebral. 
O amor é um cão dos diabos, disse Bukowski,
Nunca desalinha, o papo é reto e a flecha é capital. 
 
As construções, as elaborações, uma dúvida! 

28 julho 2015

Sala de Espera II

É na sala de espera que tudo recomeça 
Que fantasias e recalques se atiçam 
Que a psique da um mortal duplo e 
Deixa-me com a pele fina - os pelos eriçam 

Pensamentos, "regra dourada", música de fundo
Qual seria o apontado, quem assumirá a culpa?
É hora de ver-se torpe, vil, divino e sábio 
Correndo menos sangue, faltando muito ar 

Por que não desligam a música ambiente?

É nesta sala que espero e me preparo
Enquanto cruzo olhares esfíngicos famintos
Preparo-me para me ver nu 
Para ser devorado nessas areias de ampulheta. 

Preparo para o impossível da razoabilidade 
Preparo que não se sustenta 
Preparado para me despreparar 
Pois não deve haver superfície que abrace suas profundezas. 

Como me irrita este rádio roubando meu silêncio... 

É na sala de espera que tudo recomeça
Que todos os eus se manifestam 
Falta corpo para tantos caciques 
Falta vida para tantos desejos irresistíveis 

Meu filho, minha fé, minha saúde, um amor 
Tudo me marca com ferro
Poesia, trabalho, minha casa, a próxima trepada 
Tudo me marca com fogo 

Desconfio do porquê de não desligarem o som
E já não há mais olhares para mergulhar. 

24 julho 2015

Bela da Vila

Chamá-la de dona dos olhos seria ingênuo
És dona dos meus olhos
Desde que deuses do teatro me escolheram
Para admirar tanta beleza, talento, graça e leveza. 

Dizer que teus olhos sãos os mais lindos seria inocência 
És toda beleza que ponho no mundo
Desde que pude fitar, por quase um segundo,
O fundo do teu mirar e me encantar (me apaixonar). 

Dionísio! 

Deuses do teatro, deuses de toda parte
Escutem esse homem enamorado 
Por ela, que tem olhos mágicos e boca escarlate 
E que vive na correria de agendas e ensaios marcados.  

Contentar-me-ia em ser expectador 
Mas a vida pede mais e mais de um amante 
Contentar-me-ia apenas em aplaudir 
Mas meus braços foram feitos para trazer para perto, para amar. 

Oh, minha atriz 

Foste presenteada com virtuosa mirada  
Se não por nascimento, por destino inexorável 
O que pede este incauto cantador de versos
É um espaço, uma marcação no horizonte de seu amanhecer. 

Será que é divina
A vida da atriz”

22 julho 2015

Corre, menino!

Corre, anda, acelera 
Mesmo que falte tinta
Ainda que minta
Apenas não pare 
Nem olhe para os lados
Somente ande, corra, sinta 
O que ficou por dizer, morreu
O que iria perecer, padeceu
O que era de enterrar, apodreceu
Corre, anda, toque em tudo
Corre, anda, mas em nada se agarre
Não seja fogo nem seja palha
Passe no meio do verbo 
Entre o dedo e o gatilho
O que era pra fazer, esqueça 
O que era pra criar, desfaça 
O que era para duvidar, entorpeça 
Corre, anda, pobre criatura 
Ignore o tempo e as medidas de ilusão
Não tema estrada ou alçapão 
Não pare para pedir 
Nem implore por descanso 
Não se detenha, tudo está em ebulição
O que era sonho, virou pó 
O que era desejo, virou queda
O que um dia já foi, já era
Corre, anda, vai
Nada é mais forte, nada mais importa 
Nada vingará se você não abrir a porta
Dos muros altos, sim, altos e grandes
E atravessar a soleira da mocidade que jaz morta. 

18 julho 2015

Vazios vazios

Pobre do vazio que se encerra num homem
Ser tão frágil e de rápida devastação 
Ele poderia recair em outra força da natureza
Ou em lugar que dignificasse sua amplidão 

Penso no vazio das salas de teatro
Penso no vazio depois do carnaval
Penso no vazio depois do sexo
Penso na solidão de cada funeral 

Penso no vazio depois dos olhos
Penso no vazio ao escrever
Penso no vazio das canções de adeus
Penso na incompreensão do todo envelhecer 

Pobre do vazio que se encerra num homem
Não tem mais dignidade que uma gripe
Não se preenche e se torna incompreensível 
Um espaço vão sem ter quem o legitime.

O vazio das tarde
O sentimento sem suas flores
O vazio vai sempre tarde
Deixando seu rastro de dores. 

14 julho 2015

MVD

Ele me ofereceu o seu melhor doce de leite
No ponto certo e em panela trabalhada. 
Levou-me a shows de candombe e outros folclores... 
Irretocáveis - como a "uvita" que lá era servida. 

Levou-me ao carnaval, ao circo, aos museus;
Tirou todas as fotos, enquadrou-me cirurgicamente. 
Tudo nele era esvoaçante, sonoro, delicado, brutal e imperfeito,
Mas seu colorido era triste e .... era mais do mesmo. 

Como isso me cansava. 

Eu suportava o frio com minha camiseta de flechas, 
Mas não conseguia aquecer a alma desejosa; 
Ele me trazia tudo escrito e apontado nos mapas, 
Apenas para que dele me afastasse, mas nele me perdesse. 

Era a carne que eu queria - desde o início.  
Não a melhor, todavia, a mais tenra 
- afinal, eu estava num país de muitos rebanhos,
E ele me oferecia meros chivitos sem consistência. 

Será que isso também o cansava? 

Levou-me também a feiras e mercados
Igrejas e mirantes e belos prédios e campeonatos. 
Eu já não sabia o que era da viagem...
Eu já na sabia o que em mim dele começava a se despir. 

As folhas no chão também me deixaram confuso: 
Estava em Montevidéu ou tinha descido em Quebec? 
Era o anúncio, a profecia, o vaticínio que, 
De todo modo, nada passaria de semblante. 

Por supuesto que me hace cansado!

Até o Sol de sua flâmula; 
(Até isto!) Deitou sobre minha mesa de avidezes! 
Como é traiçoeira a alma sedutora, 
Como é acertadamente displicente o incauto! 

Á, Uruguai, de tantas ramblas, que me encantou, 
Que se fez apaixonar ainda no Brasil,  
Foi me dizer tão longe o que de perto já presumia: 
Que tudo o que restaria seriam as lembranças incitadas por Morfeu.  

06 julho 2015

Sobrevivo

O que me dói na injúria 
É a mesma praga da insônia: 
A impossibilidade de controlar a causa
E a necessidade de intervenção externa para dela dar cabo. 

O que mais me dói na acusação mentirosa
É o mesmo que me maltrata num filme ruim:
Ser desafiado a ir até o fim do ponto final
Para tentar entender a forma torpe de como tudo começou

O que me dói mesmo é saber que a facada virá, 
Que meu amor será abalado, 
Que minha admiração será devastada sem perdão...
E que perderei um "dos bons" para a sua própria dúvida 

Enfim, o que me dói é a falta de leveza 
A improbidade emocional.
A desconfiança é uma brisa suave, constante e insidiosa, 
Que torna ébrio até o mais vigoroso pilar. 

Seu nome ainda dorme em minha cama
Minha pele ainda recita suas canções 
Mas a incongruência mexe com meus neurônios, 
Faz-me perder a casca e ser pior que você. 

Já te coloquei pra fora,
Mas revisito sua forma;
Não para doer ainda mais, 
Mas para ter certeza e entender do que sou feito. 


22 junho 2015

Perguntas

As perguntas que preciso fazer já estão aí rodando pela a humanidade: nas cabeças iluminadas e nas sarjetas... Não preciso, então, preocupar-me com clichês ou plágios. As perguntas que me assombram estão no trabalho, no sexo, na fé, no amor, na paternidade, na fraternidade, na solidão e na alteridade. São peças que vão montando um andaime ao redor do que sou eu - uma imagem ainda em formação, mas se realizando como um cilindro com espelhos, fitas, pedras, máscaras, livros, pedaços de tecido, imagens de orixás e ícones de todas as religiões, plantas, fotografias e instrumentos musicais; tudo compondo e contido - um totem. Estes andaimes, além de se erguerem para agregar novos símbolos, servem para sustentar a estrutura onírica que faço do que sou. Estas perguntas que me faço dilaceram e organizam, são caminhos de um labirinto fechado e de estrada reta ao conhecimento que está em cada célula [desde antes do nascimento]. Acredito que estas perguntas possuem respostas: atrás de um retrato, do lado de dentro de um sorriso, embaixo da mesa das memórias, no silêncio absoluto de uma simples oração ou no coração de um grão de areia. Mas o que eu faria se fosse capaz de encontrar minhas respostas agora? Picharia os muros da minha existência com fórmulas de felicidade ou começaria a tombar por perder os meus sustentos? Uma levando a outra que chega a mais três... Já disseram que mais importante que as respostas são as perguntas. Por quê? Porque perguntar agrega, edifica, aglutina e responder dissolve. Há tempo para ambos. E eu, logo eu, um homem das chaves, perdido entre tantas e entre tantas portas. 

16 junho 2015

Já não sei.

Sei lá tem sido tão usual
Já não me lembro de algo concreto
De substância, de impacto
Só de alheamento e tiro incerto

Fugiram todas as certezas 
O verbo a poesia e a coroa
Amar sem conhecer é amor? 
Duvidar da falta de saber é crer? 

Sei lá é o desespero na língua 
É o espelho invertido, de costas
Sei lá é a ausência de um sujeito apaixonado
É a principal defesa contra os outros...

Dissiparam-se todas as dúvidas e 
O aperto das pálpebras desconfiadas
A boca que se entorta é derrame? 
E a testa franzida, é surpresa? 

Sei lá! 

Sei lá é a falta de interesse, 
Mas o que mesmo ficou no lugar? 
Sei que não estou apartado mundo-de-fora
Mas sem interesse, o que me ligaria a ele? 

Ando me despindo de fantasias literárias 
Ando me vestindo de não-sei 
Passeio sobre pernas ansiosas
Para chegar. Onde e como? Sabe-se lá... 

31 maio 2015

Não-dito

Onde descansam as frases não ditas e 
Silenciadas por um olhar ou por um abraço descuidado?
Chegam mesmo ao destino, 
Preservam-se imaculadas em seus caminhos? 

Dúvida, lágrimas... [e sorrisos]

Trata-se menos de ler mentes excitadas
Que de se ter os códigos silenciosos das humanidades 
E um discreto, não simplório, repertório de alteridades. 

Dúvida, inconstâncias ... 

Onde descansam as frase não ditas
Para onde vão quando não acham a saída? 
Chacoalham num flíper mental 
Até que a ficha ou a energia se defina? 

Dúvida, desapontamento ... [e magia]

Trata-se menos de senhas corporais
Que estar familiarizado com desatinos 
E um universo de esconde-esconde pequenino.  

Ó, certeza... aconchegue-se mas não demore a partir! 

25 maio 2015

Alegrias

Estou repleto de desejos e razões 
Fotografias e relíquias sonoras
Um cemitério de interesses caducos.
Talvez eu deva morrer para, de novo, nascer 
Talvez eu deva dormir e não sonhar. 
O que preciso é ver! 
[Para de-novo ser agora 
Para de-novo chorar e abrir os olhos
Para tocar tudo que brilha...]
E ter novas medidas e dúvidas 
Novos votos, novas juras 
Novas tristezas felizes e arrebatadoras alegrias 
E, outra vez, ir me enchendo de vida. 
Vendo a vida aparecer
Doando vida para ser ... inteiro. 

15 maio 2015

Quadrilátero

Uma estante cheia de ideias e metal
Um altar cheio de fé 
Na cama sonhos e faltas refletida no espelho 
Um calendário convidativo 
E uma xícara entristecida de café...

Na porta eu penduro experiências e suor
Na parede tem quadro e guitarra 
Ainda tem um tapete para depois do dia 
E uma caixa de magias para o bem dormir

Um criado-mudo ninador
E fotografias que giram pelo ar
Tem até um computador e um armário
Uma janela de emergência 
E um pouco de memória e álcool para embriagar [a alma]

Os travesseiros são entes vivos que 
Dialogam, debatem e não me trazem paz de graça 
Mas trago em alto posto uma carranca
Que espanta as ameaças e as traças de  espíritos em desgraça. 

Tem um cadinho misticismo, judaísmo, budismo, freudismo e junguianismo
Outro tanto de candomblé, wicca, Pessoa, Joyce, Nietzsche
Mas tem algo que nunca falta
A sensação de vereda aberta esperando a caminhada. 

28 abril 2015

Contas

É uma conta 
Que traz um conto
Em cada ponto da guia 
Em cada firma me encontro

É um fio de contas
Carregado de história e fé
No pescoço reafirma
No amaci renova o àṣę 

É uma guia 
Sagrada 
É onde inicia a caminhada
De abiyán ao fim da estrada 

É uma conta
Que me foi dada 
É a mão do Òrìsà
Que em minha vida está pousada 

É um fio de contas
É o meu distintivo de fé
É o meu ìlèkè
Meu candomblé resistente - de pé. 

É uma guia 
Com os fios da minha idade
Com as cores do meu elédá
Com firma forte para me amparar. 

11 abril 2015

Chuva, chove!

Cheiro de chuva 
Barulhinho de água na janela 
Gosto de cama
Pensamento, música, livro, vontade de tê-la ... De ter ela! 
Razões e espera! 

É para se perder
Como a gota que deixa o céu
E não sabe no ombro de quem cairá 
No asfalto já molhado ou num peito ressecado - que sorte terá?

Gosto de cinema com cadeira dupla...
De filme bobo e trilha quente
De chocolate na boca e 
Desejo revirando a gente! 

É para se apresentar
Como a gota que cai no olho
Limpando providencialmente a retina 
Deixando mais linda a menina-dos-meus-olhos. 

É chuva, mas poderiam ser pistas de você 
Deixando minha rua, janela e alma mais contentes
Por de tão longe, tão perto parecer.
Por de tão longe, tanta calma me oferecer!

08 abril 2015

Parteiro

 Todos nós carregamos algo do passado...
Uma unha encravada, um olhar desviado, o nome não pronunciado
Um mosquito a perturbar de noite. 
Temos, todos, uma neurose ou outra, 
Um quê de clichê - de humanidade. 
Mas poucos se deparam com o fim da taça, 
Com a roupa já velha no armário... 
Se importam com abraço frouxo ou
Se rebelam contra a própria chatice! 
Menos ainda têm a gana indomesticável de parir de uma vez o que passou
- Num movimento de expulsão interior, 
Como uma bomba de rosas-sem-espinhos:
Calados no útero da história e 
Aprisionados no cordão umbilical.
Deixando o passado livre no mundo
Mas sabendo que ele é a única língua compreensível no porvir. 

11 março 2015

A cidade

O sol já se põe na cidade
E ainda caminha o homem de meia-idade
Por entre as nossas veleidades 
Contando seus segredos como se fossem verdades
Nesta vida de quantidade
Já não sabemos o que é alma, corpo e personalidade.
E assim como "um rio é sempre sem antiguidade" 
Todo amanhecer deverá ser sempre uma novidade
E os mistérios trarão sempre sua porção de malfeitos e bondade
Eis o homem da velhice à mocidade. 
Para sua natureza, um rufar de lealdade
Para a presença do outro, a tal felicidade...