28 abril 2015

Contas

É uma conta 
Que traz um conto
Em cada ponto da guia 
Em cada firma me encontro

É um fio de contas
Carregado de história e fé
No pescoço reafirma
No amaci renova o àṣę 

É uma guia 
Sagrada 
É onde inicia a caminhada
De abiyán ao fim da estrada 

É uma conta
Que me foi dada 
É a mão do Òrìsà
Que em minha vida está pousada 

É um fio de contas
É o meu distintivo de fé
É o meu ìlèkè
Meu candomblé resistente - de pé. 

É uma guia 
Com os fios da minha idade
Com as cores do meu elédá
Com firma forte para me amparar. 

11 abril 2015

Chuva, chove!

Cheiro de chuva 
Barulhinho de água na janela 
Gosto de cama
Pensamento, música, livro, vontade de tê-la ... De ter ela! 
Razões e espera! 

É para se perder
Como a gota que deixa o céu
E não sabe no ombro de quem cairá 
No asfalto já molhado ou num peito ressecado - que sorte terá?

Gosto de cinema com cadeira dupla...
De filme bobo e trilha quente
De chocolate na boca e 
Desejo revirando a gente! 

É para se apresentar
Como a gota que cai no olho
Limpando providencialmente a retina 
Deixando mais linda a menina-dos-meus-olhos. 

É chuva, mas poderiam ser pistas de você 
Deixando minha rua, janela e alma mais contentes
Por de tão longe, tão perto parecer.
Por de tão longe, tanta calma me oferecer!

08 abril 2015

Parteiro

 Todos nós carregamos algo do passado...
Uma unha encravada, um olhar desviado, o nome não pronunciado
Um mosquito a perturbar de noite. 
Temos, todos, uma neurose ou outra, 
Um quê de clichê - de humanidade. 
Mas poucos se deparam com o fim da taça, 
Com a roupa já velha no armário... 
Se importam com abraço frouxo ou
Se rebelam contra a própria chatice! 
Menos ainda têm a gana indomesticável de parir de uma vez o que passou
- Num movimento de expulsão interior, 
Como uma bomba de rosas-sem-espinhos:
Calados no útero da história e 
Aprisionados no cordão umbilical.
Deixando o passado livre no mundo
Mas sabendo que ele é a única língua compreensível no porvir.