28 maio 2016

Ressaca II

Talhado 
E
Cosido 

Lapidado 
Embrutecido 

Recomposto 
Contido 

Em qual prateleira 
Ou caixa empoeirada 
Figurarei no antiquário 
Ou na "promo" de pequenas avarias?

Ser especial é ser vitrine
É gozar com as pedras lançadas 
Num masoquismo insensato
Por ser tão inteiramente marginal 

Pintado
Borrado

Fervoroso
Hesitante 

Besta raivosa 
Bichinho docilizado

Qual a prateleira para especiais
Ou a pedrada do masoquismo? 
Figurarei na promo das avarias imaginadas
Porque só é de verdade quando se pode quebrar. 

Não sei se acordo para cuidar das flores 
Ou se tenho uma ressaca pra curar. 

23 maio 2016

Águia negra



Voe, águia 
Já me mostrara como caçar 
e como defender meus limites 
Sem sofrer quando o vento me maltratar 

Volte. Volte ao seu refúgio 
Feche teus instintos para mim
Que minha pele carmim 
Não entrará mais em apuros 

Voe, águia negra
Precisas trocar as garras e o bico
É penoso, crudelíssimo e estruturante 
Ficarei com a certeza do último mirar e da sobrevivência

Voe e volte a caçar
Meu êxtase não está em não ser mais sua presa, 
Mas em saber do teu mergulho perfeito
Vez que ainda sinto na espinha o seu arrematar. 

Voe águia 
Tive amor em tuas garras 
Tive dor em tuas garras 
Tive proteção em tuas asas
Tive medo da morte no teu olhar
Voe águia negra. 

22 maio 2016

 

Reflexões dominicais. 

"O meu egoísmo é tão egoísta que o auge do meu egoísmo é querer ajudar" 
Raul Seixas  

É muito importante servirmos uns aos outros. Há quem diga: quem não vive para servir (a uma causa, a um projeto, a um amor, etc., etc. e etc.), não serve para viver. Duro isso, mas uma afirmação romântica também. Mas como acontece com todos os adágios, precisa-se que seja relativizado de alguma forma (afinal, são pouquíssimas as verdades absolutas). 

Quero ser carpinteiro de mim apenas. 

O desejo de servir, de dar atenção, de estar disponível, de ser lugar-tenente, de não piscar os olhos, não deve ultrapassar os nossos próprios limites, nossas dores. Quem nos ama de verdade, sabe disso. Sob pena de nos exaurirmos em todas as dimensões humanas - correremos o risco de nos tornamos seres patéticos em busca de uma perfeição puramente idílica e neurótica. Um esforço hercúleo, sobre humano, que oprime tanto os companheiros de causa, de sonhos, ou nossos pacientes. Adoro a metáfora de Dom Quixote de Cervantes. Quem não nos ama, estará pouco interessado. 

É estruturante saber que somos imperfeitos, cheios de furos e falhas (diferente das falhas de caráter, tá?) - e que não daremos conta de todos os encaminhamentos, que esqueceremos, que atrasaremos, que cansaremos, que teremos preguiça... Que temos limites. 

Ninguém está nessa vida para reviver o titã Atlas, com o castigo de Zeus sobre seus ombros para sempre. 

Tenho asco, digo, cansaço de quem se propõe apenas à perfeição das ações, ao invés da perfeição da consciência da alma. 

Para os que acreditam em Deus, penso que acreditam que, apesar do livre arbítrio, algo já está escrito ou determinado. Portanto, não é muito sábio tentar barganhar ou ludibriar o deus que lhe anima. 

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"Quem, de boa fé e com sinceridade, cultua outros deuses, por não me conhecer, o Eterno, este me cultua, e o perfume do seu sacrifício sobe ao meu trono, e eu o aceito." Krishna

18 maio 2016

Quando o teto é o horizonte 
E já faz tempo que seus olhos se abriram
Parece que seus desejos diminuem
E que a fantasia é imensidão. 

Vejo a moldura inferior dos quadros
E o dardo atirado não se fixa 
Estou deitado e ajoelhado...
Para os Òrìsàs baixando minha crista

Quando o teto é insidioso 
E sua alma já deu lugar à calma
Memórias me drogam, corrompem o status, 
E somente o som do vinil me salva. 

Quando o teto deixa de ser tudo, vira espelho.
Vejo-me mais nas teias de aranhas 
Uma armadilha, a velhice e total letalidade 
Vivo mosquito, vivo quem abocanha.  

Quando o teto passar a ser tudo, vira espelho.
Vejo-me na luminária, no entalle de gesso quase clásico 
Vejo delicadeza, estética e adaptação
Diminuo os analgésicos para tentar ser prático.  

16 maio 2016

ConCauby


Cauby, eu me lembro muito bem
Imitava sua voz a sonhar 
Com os palcos que a vida tem 

Foi então que me rendi ao violão 
Num pastiche seguia teus passos 
Numa vibe de deliciosos compassos

Se subiu, ninguém sabe ninguém viu 
Pois hoje um astro se eternizou ...
Por quantas veredas musicais me guiou ! 

E agora eu daria uma milhão por Cauby em meu violão.

Brilhe!

14 maio 2016

14 de Maio

Abre a porta:
o senhor é ... 
Sim!
Eu sou quem te cuidará (!)
Deus! Quem manda essas criaturas de branco?
Abre porta 
Fecha porta
Já não tenho senha ou envergadura  
Tenho um talho
Tenho um rasgo e uns fios transparentes
Seiva que entra 
Morte que sai 
Toalha 
Roupão  
Papagaio 
E um tanto de desconhecidos a me pegar. 
Nem nas fantasias fui tão promíscuo. 
Talvez sim, mas com prazer. 
A dor
A fisgada 
A novalgina e a briga pela morfina. 
A negociação entre o micropoder e a suposta adição. 
As cinzas do meu sorriso
O cansaço do sol 
É a noite sempre atrasada. 
A madrugada vilipendia e atormenta. 
Água, mais água e mais estranhamento.
Vamos andar, diz um
Vamos comer, diz o segundo
Só uma furadinha, fala o perverso
Quer ajuda?
Dói
Não posso lhe ajudar. 
Ah, foi a farmácia que atrasou!
Não, foi a gerência que não liberou. 
Ah, Foucault venha me valer! 
Sartre, por que desapareces?
Freud, seu porra, preciso de você! 
Abre a porta 
O senhor é...
Sim, sou eu! 
E meu namoro à distância com o teto é novamente interrompido.
Abre-te sésamo 
Preciso resgatar minha autonomia
Antes de fazer parte dos ladrões de imagens. 
Pressão sanguínea 
Batimentos de crenças
Termômetro de decepção 
Imobilidade calculada no taxímetro dos botões da maca. 
Visitas
Sorrisos 
Não fique aí parado! 

10 maio 2016

Morada

Talhado 
Corrige
Burilado
Retira o que é sombra e o que é casca. 

Aberto
Viola
Exposto 
Dar a ver, dar a dor, deu, à tudo, tempo. 

Aberto
Mal feito
Degredo
Marginais do sorriso branco bem mantidos. 

Esculpido 
Molde
Reciclado
O alicerce, a viga, um corpo revisitado

Acordado 
Droga
Renascido
Aprendendo a reaprender e a me (o)posicionar.