28 julho 2015

Sala de Espera II

É na sala de espera que tudo recomeça 
Que fantasias e recalques se atiçam 
Que a psique da um mortal duplo e 
Deixa-me com a pele fina - os pelos eriçam 

Pensamentos, "regra dourada", música de fundo
Qual seria o apontado, quem assumirá a culpa?
É hora de ver-se torpe, vil, divino e sábio 
Correndo menos sangue, faltando muito ar 

Por que não desligam a música ambiente?

É nesta sala que espero e me preparo
Enquanto cruzo olhares esfíngicos famintos
Preparo-me para me ver nu 
Para ser devorado nessas areias de ampulheta. 

Preparo para o impossível da razoabilidade 
Preparo que não se sustenta 
Preparado para me despreparar 
Pois não deve haver superfície que abrace suas profundezas. 

Como me irrita este rádio roubando meu silêncio... 

É na sala de espera que tudo recomeça
Que todos os eus se manifestam 
Falta corpo para tantos caciques 
Falta vida para tantos desejos irresistíveis 

Meu filho, minha fé, minha saúde, um amor 
Tudo me marca com ferro
Poesia, trabalho, minha casa, a próxima trepada 
Tudo me marca com fogo 

Desconfio do porquê de não desligarem o som
E já não há mais olhares para mergulhar. 

24 julho 2015

Bela da Vila

Chamá-la de dona dos olhos seria ingênuo
És dona dos meus olhos
Desde que deuses do teatro me escolheram
Para admirar tanta beleza, talento, graça e leveza. 

Dizer que teus olhos sãos os mais lindos seria inocência 
És toda beleza que ponho no mundo
Desde que pude fitar, por quase um segundo,
O fundo do teu mirar e me encantar (me apaixonar). 

Dionísio! 

Deuses do teatro, deuses de toda parte
Escutem esse homem enamorado 
Por ela, que tem olhos mágicos e boca escarlate 
E que vive na correria de agendas e ensaios marcados.  

Contentar-me-ia em ser expectador 
Mas a vida pede mais e mais de um amante 
Contentar-me-ia apenas em aplaudir 
Mas meus braços foram feitos para trazer para perto, para amar. 

Oh, minha atriz 

Foste presenteada com virtuosa mirada  
Se não por nascimento, por destino inexorável 
O que pede este incauto cantador de versos
É um espaço, uma marcação no horizonte de seu amanhecer. 

Será que é divina
A vida da atriz”

22 julho 2015

Corre, menino!

Corre, anda, acelera 
Mesmo que falte tinta
Ainda que minta
Apenas não pare 
Nem olhe para os lados
Somente ande, corra, sinta 
O que ficou por dizer, morreu
O que iria perecer, padeceu
O que era de enterrar, apodreceu
Corre, anda, toque em tudo
Corre, anda, mas em nada se agarre
Não seja fogo nem seja palha
Passe no meio do verbo 
Entre o dedo e o gatilho
O que era pra fazer, esqueça 
O que era pra criar, desfaça 
O que era para duvidar, entorpeça 
Corre, anda, pobre criatura 
Ignore o tempo e as medidas de ilusão
Não tema estrada ou alçapão 
Não pare para pedir 
Nem implore por descanso 
Não se detenha, tudo está em ebulição
O que era sonho, virou pó 
O que era desejo, virou queda
O que um dia já foi, já era
Corre, anda, vai
Nada é mais forte, nada mais importa 
Nada vingará se você não abrir a porta
Dos muros altos, sim, altos e grandes
E atravessar a soleira da mocidade que jaz morta. 

18 julho 2015

Vazios vazios

Pobre do vazio que se encerra num homem
Ser tão frágil e de rápida devastação 
Ele poderia recair em outra força da natureza
Ou em lugar que dignificasse sua amplidão 

Penso no vazio das salas de teatro
Penso no vazio depois do carnaval
Penso no vazio depois do sexo
Penso na solidão de cada funeral 

Penso no vazio depois dos olhos
Penso no vazio ao escrever
Penso no vazio das canções de adeus
Penso na incompreensão do todo envelhecer 

Pobre do vazio que se encerra num homem
Não tem mais dignidade que uma gripe
Não se preenche e se torna incompreensível 
Um espaço vão sem ter quem o legitime.

O vazio das tarde
O sentimento sem suas flores
O vazio vai sempre tarde
Deixando seu rastro de dores. 

14 julho 2015

MVD

Ele me ofereceu o seu melhor doce de leite
No ponto certo e em panela trabalhada. 
Levou-me a shows de candombe e outros folclores... 
Irretocáveis - como a "uvita" que lá era servida. 

Levou-me ao carnaval, ao circo, aos museus;
Tirou todas as fotos, enquadrou-me cirurgicamente. 
Tudo nele era esvoaçante, sonoro, delicado, brutal e imperfeito,
Mas seu colorido era triste e .... era mais do mesmo. 

Como isso me cansava. 

Eu suportava o frio com minha camiseta de flechas, 
Mas não conseguia aquecer a alma desejosa; 
Ele me trazia tudo escrito e apontado nos mapas, 
Apenas para que dele me afastasse, mas nele me perdesse. 

Era a carne que eu queria - desde o início.  
Não a melhor, todavia, a mais tenra 
- afinal, eu estava num país de muitos rebanhos,
E ele me oferecia meros chivitos sem consistência. 

Será que isso também o cansava? 

Levou-me também a feiras e mercados
Igrejas e mirantes e belos prédios e campeonatos. 
Eu já não sabia o que era da viagem...
Eu já na sabia o que em mim dele começava a se despir. 

As folhas no chão também me deixaram confuso: 
Estava em Montevidéu ou tinha descido em Quebec? 
Era o anúncio, a profecia, o vaticínio que, 
De todo modo, nada passaria de semblante. 

Por supuesto que me hace cansado!

Até o Sol de sua flâmula; 
(Até isto!) Deitou sobre minha mesa de avidezes! 
Como é traiçoeira a alma sedutora, 
Como é acertadamente displicente o incauto! 

Á, Uruguai, de tantas ramblas, que me encantou, 
Que se fez apaixonar ainda no Brasil,  
Foi me dizer tão longe o que de perto já presumia: 
Que tudo o que restaria seriam as lembranças incitadas por Morfeu.  

06 julho 2015

Sobrevivo

O que me dói na injúria 
É a mesma praga da insônia: 
A impossibilidade de controlar a causa
E a necessidade de intervenção externa para dela dar cabo. 

O que mais me dói na acusação mentirosa
É o mesmo que me maltrata num filme ruim:
Ser desafiado a ir até o fim do ponto final
Para tentar entender a forma torpe de como tudo começou

O que me dói mesmo é saber que a facada virá, 
Que meu amor será abalado, 
Que minha admiração será devastada sem perdão...
E que perderei um "dos bons" para a sua própria dúvida 

Enfim, o que me dói é a falta de leveza 
A improbidade emocional.
A desconfiança é uma brisa suave, constante e insidiosa, 
Que torna ébrio até o mais vigoroso pilar. 

Seu nome ainda dorme em minha cama
Minha pele ainda recita suas canções 
Mas a incongruência mexe com meus neurônios, 
Faz-me perder a casca e ser pior que você. 

Já te coloquei pra fora,
Mas revisito sua forma;
Não para doer ainda mais, 
Mas para ter certeza e entender do que sou feito.