26 dezembro 2013

E.

Eu lhe disse que parasse de sofrer
De tanto raro pranto verter
Sem tanto amanhecer
De encolher
Nada
Atabalhoada
Ficarei calada
Estarei, só aos teus, parada
Disseste enquanto pegava a estrada
E eu que já não mais com alma te via
Sonhar não mais podia
Pouco ria
E sofria
Fria
Meu?
Não, esqueceu?
Há tanto meu amor asas te deu
Disse, outra vez, não sofrer se não aconteceu. 

17 dezembro 2013

Fotografia de lá

Não há como ser todo eu fora de mim
Nem caber tudo do mundo aqui dentro
Por segredo, por decreto, por desejo ou por incenso.

Há os predicados – agregados, violados, encantadores
Há menos amor que olhares no instinto
Em tudo o que eu digo e no que dizes sentir.

Por que ainda não disse o que valia?
Por que só depois da ressaca?
Por que apenas quando já não vale o tropeço?

Não há como ser todo eu fora de mim
Nem falar do mundo para o vento
Não há como espantar todos os fantasmas

Não há como caber o mundo aqui dentro
Nem cansar lá, nunca aqui


Por que amar não é só fotografia. 

08 novembro 2013

Ifé

O branco por cima do couro
Que tem também cor d'ouro
Ajuntado na prata e turquesa
E verde e rosa e vermelho e beleza.
O branco por cima do couro 
No alto de todas as cabeças 
Por dentro e fora e meio e desejo
Como nuvem bem devagar
O branco por cima do couro
A cor que veste e despe e encanta 
Que traz o sagrado Bàbá
À minha alma colorida! 
O branco por cima de tudo
Guardando elevando protegendo 
Um passo em Ifé 
E a fé no mergulho ancestral 
08/11/13

14 outubro 2013

Troço

Mas que troço esquisito é o amor, ao menos como o vejo e canto; tudo nele é definitivo pelos próximos dois olhares de segundo! 


Eu mal sabia que era ela que vinha no desajustamento de minhas ideias; que já era hora de recolocar bandeira de amor. 

Eu que ainda carecia das últimas lições de fantasias libertinas para amansar suas mãos de ladainha; dos pés sem sobressalto à boca de falar, de dizer mainha. 

Mas que desassossego é o amor... A carta deixada na porta diz menos que o mutismo ao telefone - nosso pavor! 

Eu que preciso menos de palavra que de desejo, sou invadido, dominado, conquistado por frases de efeito sem receio, nem recreio. 

Eu que devia ter um nome a zelar, tenho um sonho para criar e dar de comer; crescendo vistoso tenho certeza que se multiplicará. 

30 setembro 2013

Omi

Ainda era madrugada
Ainda tinha sono
Era a minha alma acordada
- O corpo só descansava
enquanto meu espírito se agigantava
Pela vida, pela promessa, por toda entrega...
Pela Água, para as Águas...
Tudo nelas lava, leva, eleva...
Tudo é movimento em movimento! 
Colorido de Branco 
Desci à fonte com minha lata de expectativas 
E com ela cheia de mim - 
espelho do que ainda sou e serei, 
Subi, subi a serpente branca
Tenente em meu lugar, inabalável na fé
Com irmãos ao lado
Com Santos a pé
Aos olhos de estrelas e Encantados
Que da mata me asseguravam verdades e força.
A conversa com Olorun, com os Santos, comigo mesmo
Não me deixaram ver que já era dia...
E com o sol, cheguei à cabeça à cabeceira 
E fui banhado na casa do Guerreiro Fun Fun
Todo o mundo era um grande e sagrado Pilão
Em minha frente, Iroko 
Como testemunhas Èsù, Ògún, Òsóòsi e Obaluaiye 
Além de Osun e toda minha Ancestralidade 
Que me viram ali, com votos renovados
E o desejo reafirmado em cada gota de bênçãos
Caminhar sob o Ala de Osala!

13 agosto 2013

No tempo em que os olhos seduziam

No tempo em que os olhos seduziam
Eles nao precisavam ter cor
Nao era necessário ter um jeito
E todo infortúnio interno fora desfeito.
No tempo em que os olhos seduziam
Havia mais pelos e mais pele
Mais trejeito, confusão - Gita e Memória
Violão de roda e rodas feito fumaça em calmaria
Quando os olhos seduziam
Eternizar era tão desesperador quanto mudar
Como dizer eu te amo
Para, n'outro olhar, deixar de amar - doce ventania
Quando os olhos seduziam
O corpo, salvo a língua, de nada valia
O falo estava no centro da testa
Como o terceiro que ninguém vê
No tempo em que os olhos seduziam
Poucos sabiam ler
Poucos se livravam do prazer - outrora maestria;
E eles já não sabiam ser ou ter - coisas de iludir
No tempo em que os olhos seduziam
Não se usavam palavras ou poemas
A linguagem era para se viver
E os sonhos de cama ou de rua para se refazer

06 junho 2013

sentimento-gozo

Orgasmo
Outro
Ruídos
Flores
Rápido
Líquidos
Sólidos
Insólitos
Respiração
Camisinha
Perguntas
Cigarro
Água
Gargalo
Cama
Sorrisos
Espelho
Carinho
Horas
Velas
Pétalas
Perfume
Cheiro
Fio-de-cabelo
Fome
Bobagem
Roupas
Acessórios
Sala
Telefone
Beijo
Taxi
Escada
Esquecimento
Coração
Relógio
Sentimento

29 maio 2013

grande amor

O que resta do grande amor?
O que sobra?
O que permanece é grande!
É forte e neurótico ou
Gordinha e linda.
Verde ou azul turquesa
Ou muito baixinho, mas
Usa a escada como nenhum outro.
É o amor que nos demos!
O que corporificado
E inutilmente excede é o "grande".
Ele carece ser imenso
Por nos sentirmos pequenos
o outro precisar ser uma espécie de herói -
a falta é obrigada a faltar...
Ou só porque precisamos enaltecer,
Com todas as delongas e milongas,
O ordinário humano.
Os adjetivos são armadilhas
E a certeza trairá.
Meus pares!
Amem como se fossem oceanos
Preocupem-se e se dêem nomes
Como se fossem a menor das ilhas.
E por assim falar,
Que ilha é menor que os sete mares?

21 maio 2013

Há perdão?

Perdoar o quê?
A fumaça nunca tragada
e ao corpo presa;
os cigarros acesos e
violentos ao chão, enquanto
e os pulmões repousam sobre a mesa?

O verbo que se transformou em gesto,
mas que já era intenção,
dentro de um corpo sujo e
alheio aos sentidos -
irrompendo-se sobre sentimentos
como um desenfreado vulcão?

A ausência que invariavelmente foi falta,
lacuna imprudentemente programada
com tempo, silêncio e desculpas,
custando o incontável dos sorrisos amarelados
que de tanto se espalhar, dissipou, esvaneceu
dando lugar à rua, à lua?

O boca que diz perdoe
e traz a dissensão como estandarte,
locupletando-se de lembranças vazias
fazendo a espada ensaiar sair da bainha
num convite de mal agouro
naquele sempre dizer: eu iria.

Não há nada a perdoar!



16 maio 2013

e assim vou

Adolescência
rockbeldia
[Beatles, Acabou Chorare]
roupa pop da moda
pura fantasia
fading away

Pára!

Trabalho
horário
correria
prazo
entrega de resultados

Pára

Médico
e medicina
cirurgia
e maresia
tédio de recuperação
análise e fisioterapia

Pára

Pensa
reflete
revive
[Acabou Chorare, Beirut]
e a vida que se adianta
seguindo intacta

Pára

O jeito é amansar
acreditar no Sagrado
fazer um quilo valer novecentos gramas
a justa sabedoria da paz
e comer a vida feito uma maçã
doucement...


12 maio 2013

meu porto seguro

Mãe.
Ser divino (para mim que sou filho)
Tantas vezes heroína
por vezes bruxa
com suas palavras e quebrantos poderosos, chazinhos e alquimias.

Muitas vezes lágrimas
que são sucedidas por largos e demorados sorriso.

No júbilo, forte pilar.
Nas decisões, altar.
Quando há sombra, faz-se solar.
Nas pisadas de bola é o duro encarar.
Mas por toda vida sua arte e ofício é amar!
Te amo Mãe!

30 abril 2013

tudo que vier à cabeça

Hoje acordei pensando:
Quem pensa é a alma ou o espírito?

Haja vida!
E não me venha com essa:
- E o lastro fisiológico:
Sinapses neurônio neurotransmissores?
Esses do raciocínio são senhores!

E o pensamento, o raio de luz que sai dos olhos, 
a ideia que faz marejar todo o corpo, a "eureka"?
Haja arte!
E se também tem alguém que a gente não vê - 
Não vê mas ouve direitinho o que tem a dizer?
Iluminados que fazem a gente saber o que tem na cabeça
Pra acabar pensando o que já era
pra saber ou já sabia? 

Haja luz!
Quem pensa é a alma, a mente ou o espírito?
Arre! São quantos dentro da gente?

19 abril 2013

Pano Branco

Que não seja um pano qualquer
Nem qualquer costura.
Que não seja de qualquer fazenda
Nem qualquer feitura.
Que não seja de ordinária cassa
Nem qualquer encomenda.
Que não seja mistura
Nem qualquer emenda.
Mas que traga consigo a divindade
A elevação, a pureza, a sutileza
Do tecido branco consagrado.
Que venha das mãos da Yá ou do Babá
Que traga Asè,
Que seja o Alá do Osala...
E que no dia de hoje,
como lembrou a Yaroba,
Nesta Sexta sagrada,
Este Alá de Osala me cubra
A todos que me querem bem
E a todos os nossos Orisas!
Àse!



04 abril 2013

sortilégio

E, como num sortilégio incompreensível, tudo calou.
Nem mais uma voz,
nem mais uma lembrança,
nem recuperação
nem cuidado
nem dança.
Só os nervos falam
num dialeto embriagado de desconforto
de cansaço.
Só os nervos sussurram
quebrantos de neurotransmissores.
Só os nervos rabiscam
sinapses caóticas...
Qualquer morfina
não passa de oásis,
desilusão fotográfica.
E quando a dor grita
o silêncio da alma precipita...
E tudo cala.

17 março 2013

luvas

Me mande um par de luvas
- De aço cortiça couro ar,
Para acertar minha coluna
Tomar banho de tardezinha
Plantar minha goiabeira antiga
Ajeitar a barba no anoitecer...
E, ao ingerir o analgésico de esperanças caducas,
Embalar a fábrica de desejos...
Me mande as minhas luvas
- De ontem amanhã do meio de quando, 
Para comer diferente novo
Escrever novamente outro
Sem tanta rima de gramática protética.
Para doar notas
E reatar sonho-de-nós-sonhos.
Escute, deixe que eu me visto...
Calço estas luvas
Que permitem sentir mãos
Quando o peito só tem garras...
Com luvas eu não vejo.

06 março 2013

Suspiro

Há algo dentro de mim,
Que nasce num lugar qualquer
E vive noutro que desconheço,
Que sobrevive sem começo,
Sem apetrechos
(Dentro, dentro de mim),
Sem carecer de outros corpos.
Mas urge por almas
Daquelas bem apaixonadas
Como o vestido formoso quando usado
Ou o canhão de circo na sua vez do aplauso.
Há algo dentro de mim...

28 fevereiro 2013

VODKA

Tem coisas que começam num, ou em tantos, mundo e terminam em outros.
Deve haver clareza no "Eu sei!"
Deve haver um novo mundo em português.

Que começa no zodíaco
Que começa no vaso escondido
Que começará onde triunfei
Que terminará onde tu não serás rei.

Em meu domínio há um gringo;
em tuas mãos "para o moinho"
Nas outras : "para a enganação!".

Tem coisas que começam
Em algum outro mundo e terminam por aqui....
Tantas vidas se espalham (entre  espadas e escudos)
Quando o verdadeiro amor se dispuser.
Quando o meu bem olhar no infinito, estarei no raio do luar.

19 fevereiro 2013

Ladainamente

Emudecionado. 
Mudo
De modas.
De licores,
Bem trabalhado.
Enriquecido.
Agraciado.
Paraliousado...
Experimentado em rodas.
Talhado.
Criativado...
Coisas e tantas outras.
Medo altivo,  ébrio, banido.
Fé parcimoniosa, instruída, exitosa.
Ah, emudecionado.

13 fevereiro 2013

Cativo

Quando deixar de cultivar escrúpulos
De ser submisso ao bom senso... 
Amiguinho da cortesia
Libertarei meus escravos dos termos de grupos

Quando matar o que for orto-mente correto
Tirá-lo de minha fluidez
Que atua (sem subterfúgios) em minha mente
Retórica de shadow e prosódia de reto...

A ignorância reside sob a repetição
Faz seu ninho de gravetos
E limalhas de ferro enferrujado
Sob o sol de um novo dizer sem ambição

Tanto tempo sem pegar na pena
É meu castigo e aceito sem tanta ira...
Enquanto mantiver minha poesia cativa
Minha alma aparecerá sem escrita.

Cultivar . Cativar . Deixar cativo.