28 julho 2009

m.o.r.t.e.s.

A morte, às vezes, parece um presente. Suas névoas e sombras de mistério. Seu ar soberano... sua libertação. A displicência em mim. Meu desejo, meu cansaço, essa constância de ímpetos. A covardia e a coragem se entrelaçando. Já estou sem paciência. A desconfiança só pode ser revelada num muro sem divisões - começo a pensar em execuções e lamentações. O que interessa é que nunca a senti [a morte] tão presente, com seus braços mornos, seu olhos azuis, sua pele macia, seu cheirinho de sândalo, mas sem qualquer epifania. Penso que não deveria interessar-me tanto por Deus... seria superior às tormentas. Quanto mais penso que duvido, enobrece-se e se torna inabalável minha fé. Não sou bandoleiro ou poeta - que regalo teria? Falo de mortes, do presente proscrito, do que já foi escrito na alma, portanto, no corpo [para além de tudo, doído], do medo e da queda, do grito que vicia e é amplificado nas solidões. Todos estão calados. Por que falar das próprias mortes? Sem quebrantos de amor ou dores concretas. Gostaria de ter outro projeto. Os que me importam já estão sendo tocados, e bem. Mas, neste momento, o ponto é a morte do que nos resta, do que já não mexe, já não mais arrepia - para que uma nova vida cresça sem mortes.

27 julho 2009

Ao Nada


escrever pelo nada
pela desvontade e pelo desgosto
escorrendo pelo esgoto dos sentimentos
palavras que são mudas e claudicam
trôpegas se amontoam num imperativo
ofertando o único caminho à primeira razão
escrever pelo nada
nada dizer, nada querer, nada fazer... não morrer
nada comer
mas digerir o nada dentro de mim
com atos em falso e passos reais

escrever pela falta de inspiração
por um amor ou uma dor que, de resto, só faltam
por um desejo quase morto em si mesmo
pelo objeto, que de pirraça, cai.
escrever pela falta
pelo que não é mostrado ou dito
pelo que não sai e incomoda
pelo que comprime, aperta, afoga...
prende e liberta o corpo
solto, desprotegido, desvalido

escrever pela obrigação
pelo zelo ao nome e à condição
pela dignidade que sobra aos que tudo levaram
escrever como tarefa árdua
com a determinação de um bom vaqueiro
e a delicadeza aristocrática de um dândi
escrever pelo prazer
pelo impossível de não o fazer
pela necessidade de esquecer
e dar ao mundo o que não quero ter.

22 julho 2009

Sem outras palavras...


- olhe a cara dela!
veja o contraditório em suas janelas
tão sem ritmo e tão falsa amarela
veja o jeito frio como vela
cada espreita em cada movimento se desvela
que jeito!
impiedosa, zen-graça, tagarela
rapidamente desmantela
desrespeito ... na própria lama se mela
eu, vã, fui sentinela
e vi palavras enforcadas nas aquarelas
pintadas habilmente sobre a tela
olhe...
não há amor no drama que estrela,
assim como não tem cadência,
nem espírito ou competência
para ser obra-prima ou fancy book
para este desgosto em forma de poema

I still standing up


não lhe contei o que doía!
aquilo que marca a pele e confunde a alma
e que me faz reler a vida a cada momento
- o que não foi dito pela astrologia.
não lhe falei da minha face...
das que se fizeram possíveis ou necessárias...
das que restavam no armário
- tão gastas e solitárias quanto as desculpas
as dúvidas, sim, coloquei na mesa...
e gritamos que acreditaríamos,
mas eu sussurrava sozinho meus medos
dizia de um tudo (menos o nome) - não será uma repetição
disse-lhe tanto sobre meu jardim
das flores que rego e dos parasitas que aceito
sugeri quando poderíamos tomar sol
ou a trilha que deveríamos ter caminhado...
vã aceitação -
fútil engodo
não lhe disse o que não lhe pertencia
compreendi perplexo sua desatenção
- que regalo! não sabia que estava em julgamento
ainda há amor, mas o olhar está morto.
morto como só as pedras sabem estar.

21 julho 2009

Sem fantasia.

Hoje não tem verso, nem fala, nem frio, nem fome ... só o real; ainda assim, resta-nos a arte - confiram este video de Chico e Caetano - Sem Fantasia.

Desprendimento


só aprendi a amar
nunca tentei defender
(nem tenho espírito bélico);
- é mais difícil dizer sob o luar?
caminhei na direção de me mostrar
jamais pensei em julgamentos
olhares que não fossem meus
segui em contradição com o Sol
aprendi a amar sem provar,
experimentar, degustar, saborear...
fiz-me de entrada.
- não preferi os bilhetes insinuantes
às dores e sabores que ficavam na boca...
nunca me defendi do meu amor
mesmo quando estive sob o fundo-falso do poço
nunca lutei contra, seguia o rio...
bloqueava, driblava, seduzia
amortecia a queda e, aos poucos, morri de amor.
só aprendi a amar
amar o que o outro queria
amar o que você defendia
amar tudo o que nada dizia.

- já não sei mais amar.

19 julho 2009

Amar

"Amar é dar o que não se tem." Platão (depois Lacan)
No auge dos meus trinta anos ou no amanhecer do resto dos meus dias, ainda não consigo definir melhor o amor. Acredito que sendo tão pessoal e universal, o amor (criação nossa) não tenha outras definições plausíveis. O ato em si tem infindáveis bordões (amar é isso, aquilo, meio-amargo, "meia-calabresa"), mas o amor, não. "Sabe lá, o que é não ter e ter que ter pra dar, sabe lá" (Djavan). Não pretendo o posto de Platão ou Lacan, só quero entender isso que não dou nome, nem forma, nem textura e tanto dói ... algumas vezes é vazio noutras transmuta-se num infinito, desprezo gratuito e doação sem limites, não tem uma sensação mas uma verdadeira alucinação em todo o corpo, desregramento dos sentidos, algumas vezes faz sorrir mas, de ordinário, chora-se. "Quem inventou o amor me explica por favor" (Renato Manfredini). E lá se vão mais poetas...

Percebi a noite

percebi, outra vez, que era noite
noite sem sombras nem desejo
gritos ou sussurros já haviam calado
percebi a noite como um exaustivo espelho

percebi que era noite clara
semáforos angustiados nublavam o néon
televisores formam um insone vitral
percebi tudo na solidão de minha existência

a noite já era um não-ser
caras plásticas sem vestígio de qualquer alma
nomes de promessas e instantes de ofensas
percebi a noite como uma máscara vienense

a noite fria dos medos
ruas em transe e falas contidas
sonha-se um sonho cinza em cada meio-fio
a noite já não era minha madrugada
- já não tenho mais café!
ouço passos apressados e encantamentos modernos
semblantes diferentes que clamavam e reclamavam o mesmo

percebi que amanhecia
e voltei a sorrir.

18 julho 2009

Ferramentas

arco-íris e por-do-sol
nos tratamos de forma mais suave
sorrisos...
assim nos permitimos sonhar.

voltei a bater à sua porta
não lhe trouxe flores dessa vez
mas minha alma decorada com alfinetes de verdade
(estava linda e com um olhar ainda confuso)

repessamos nossos lugares à mesa
toda mancha, sombra e silhueta
não quero mais outra "aquela" música
nem esperar cada piscar de amanhecer

venha me beijar
cale minha boca com seu desejo
quero sentir as pétalas pelo meu corpo
perfumando-me de saudade-rosa e quero-mais

hora de encontros
no crepúsculo de nosso passado
alvorecer de um devir em amor
em cada espectro de viver, sentir, sorrir, sumir


ferramentas...
gotas de chuva em nossa janela.

13 julho 2009

n.ú.m.e.r.o.s.

temos um número, um basta!


um padrão e uma meta

um na porta da sala

outro na ponta da testa

temos um número no corpo

nas almas...

que Cristo deixa ou leva

nas mercadorias de grifes famosas

nos pratos das balanças assimétricas.

temos um outro no espelho

de costas

ou de frente

não são os mesmos.

mudam nos olhos, nos medos

ainda temos os números que tentam competir com o desejo.

nos poemas eles se repetem, repetem

repetem.

no quadro da vida

escrita, lida, rezada, murmurada

na palavra (não-bem-quase) dita

realizamos um número que não é.

12 julho 2009

e.u.

eu
eu te amo
eu me amo
eu o amo
eu a amo
eu não
eu, sim, amo
eu quem amo?
eu só amo!
Não diga que me ama
abrace meu peito
toque nas minhas mágoas
aceite este co(r)po meio-cheio
e diga que dormiremos juntos
Não prometa largar tudo
deixe-me ver sua alma
fazer um coral com nossos grilos
aceite a toalha na cama
assim, prometo nada lhe prometer
Não jure secretamente
cuide de suas asas e
esqueça dos fantasmas nos nossos quadros.
Representações.