19 dezembro 2016

Esperando o meteoro,

O pouso dos ETs, 

O bico do corvo...

A vida em degradê.

Sem tanto abalo.

Sem saudade.

Sem os mesmos clichês. 

Esperando do céu 

O agourento e o redentor.

Para findar o amor,

a casa de vontades e 

A incerteza fria da colisão, 

Nessa vida de imitação.

Sem ser cadente.

Sendo ardente

Que extirpe alma démodé. 

31 outubro 2016

Adormecer do caos

Em silêncio 

Devagar, não, bem menos pressa 

Foi assim que ela me assaltou 

O sopro num olhar 

Inflou meu peito sonolento 


Doucement 

Em gritos que não arranham ouvidos

Foi que me vi agarrado a ti 

Dançando, recitando, compondo sem músicas 

E distraído ao ranger de portas da manhã 


Em silêncio 

Detive-me 

Era medo 

Já chegara o hora

D'onde não se volta sem chorar 


Doucement 

Invadimos os portões 

Forjados por Eros. Se voltássemos, Hades ...

E se estivéssemos juntos

Não haveria caminhos pra evitar 


Em silêncio 

Vi tudo ser levado pelas mãos 

Vimos tudo ser colocado em seu lugar 

Era tão diferente do que já fora 

Que sorrimos para um reflexo do que agora é.  


Doucement

Foi-se ecoando o silêncio. 

16 setembro 2016

Percurso

Analisando
Fatiado em significantes
Falado aos ventos
Remontado sem os devidos encaixes
Fez-se o silêncio em contraste.
Repetido
Preenchido de sentidos
Vestido em interpretações
Impelido para que me ache
Fez-se a dor por indulgência
Hora de (des)falsear

Sonhando
Em rincões recônditos
Livremente associando
Para livrar a fantasia
Recordando
O que jamais foi dito ou atacado
Elaborando
A troca da pele da carcaça

Analisado
Deitado em significados
Reativo, retalhado
Falhado nas cadeias, nas palavras
Fez-se a fuga para outro de mim
Repetido
Combalido a lei
Entre tantas petites morts
Um sonho em relâmpago
Um sinal esmaecido - valentia no andar

Sonhando
Comportamento cabotino de lá
Livremente associando
Um fluido ainda denso, alvo, viscoso
Recordando
As horas, as ruas, as aquarelas
Elaborando
As muletas de fazer e de tropeçar

Analítico
Com a cabeça empalada
Atravessada a transferência
Viu algo para se apoiar
Repetido
Cansou das mesmas ervas daninhas
Dos incansáveis replantar
E da falta que a falta não fazia.
(Des)mistificar

Sonhando
Em satisfações agressivas
Livremente associando
Pôs de lado os grilhões 
Recordando
Que já era algoz antes de vítima
Elaborando
A magia de só ter uma vida

15 junho 2016

Arrodeio

Tergiversando com o amor
Comportamento nada auspicioso 

Flertar com o fogo e a dor
Descabimento ou fingimento ardiloso

Se nele reside o cão 
Por desfaçatez não me agacharei 

Intempestivo é o momento vão 
Consciência pressionando o que já sei. 

Mas se dou de ombros  
Sem voltas ou ardis 

É no calor e no assombro 
Que me ergo do poço infeliz 

Quanta mentira diz quem ama
Quanto de tudo é de se provar 

Aquele que já era velho na última semana
Na cama caiu e disse: - Vou aproveitar

E delimito aqui meu terreno
Te demito do meu embaraço 

Viver é ser, sido, sendo 
Sem registro, sem calhamaço 

Amor é correnteza de rio sem foz! 

08 junho 2016

Preciso de um Bolero
Daqueles de meu Recôncavo 
Para trocar os óculos 
Já moídos 
Por ósculos 
De causar estrondo 
Pois La Belle de Jour,
Coisa de grande poema, 
Vale mais em meu Nordeste 
Que Tereza da praia 
Ou Garota de Ipanema! 

04 junho 2016

Ruptura

As estrelas são mestras no pique-esconde 
Com todo seu tamanho
Cabem ou descabem em lembranças 
Do recordante ou de quem lhe aponte... 

Se o copo está cheio de escuro
Culpado e reculpado também é o astro rei 
Que solene deixou-se vencer
Pelo moleque apostador de futuros

Mas se a ampulheta fulgura 
Culpado e tresculpado é o menino mascate
Que não soube ver a hora passar 
E prendeu a luz em sua frouxa ruptura 

De achar aqui e perder ali 
Vão-se puindo as fibras das vestes 
Incauto e perigoso negociar recordações 
Mesmo que das mãos das vestais. 

Ainda brinco de contar estrelas para me contar histórias. 

28 maio 2016

Ressaca II

Talhado 
E
Cosido 

Lapidado 
Embrutecido 

Recomposto 
Contido 

Em qual prateleira 
Ou caixa empoeirada 
Figurarei no antiquário 
Ou na "promo" de pequenas avarias?

Ser especial é ser vitrine
É gozar com as pedras lançadas 
Num masoquismo insensato
Por ser tão inteiramente marginal 

Pintado
Borrado

Fervoroso
Hesitante 

Besta raivosa 
Bichinho docilizado

Qual a prateleira para especiais
Ou a pedrada do masoquismo? 
Figurarei na promo das avarias imaginadas
Porque só é de verdade quando se pode quebrar. 

Não sei se acordo para cuidar das flores 
Ou se tenho uma ressaca pra curar. 

23 maio 2016

Águia negra



Voe, águia 
Já me mostrara como caçar 
e como defender meus limites 
Sem sofrer quando o vento me maltratar 

Volte. Volte ao seu refúgio 
Feche teus instintos para mim
Que minha pele carmim 
Não entrará mais em apuros 

Voe, águia negra
Precisas trocar as garras e o bico
É penoso, crudelíssimo e estruturante 
Ficarei com a certeza do último mirar e da sobrevivência

Voe e volte a caçar
Meu êxtase não está em não ser mais sua presa, 
Mas em saber do teu mergulho perfeito
Vez que ainda sinto na espinha o seu arrematar. 

Voe águia 
Tive amor em tuas garras 
Tive dor em tuas garras 
Tive proteção em tuas asas
Tive medo da morte no teu olhar
Voe águia negra. 

22 maio 2016

 

Reflexões dominicais. 

"O meu egoísmo é tão egoísta que o auge do meu egoísmo é querer ajudar" 
Raul Seixas  

É muito importante servirmos uns aos outros. Há quem diga: quem não vive para servir (a uma causa, a um projeto, a um amor, etc., etc. e etc.), não serve para viver. Duro isso, mas uma afirmação romântica também. Mas como acontece com todos os adágios, precisa-se que seja relativizado de alguma forma (afinal, são pouquíssimas as verdades absolutas). 

Quero ser carpinteiro de mim apenas. 

O desejo de servir, de dar atenção, de estar disponível, de ser lugar-tenente, de não piscar os olhos, não deve ultrapassar os nossos próprios limites, nossas dores. Quem nos ama de verdade, sabe disso. Sob pena de nos exaurirmos em todas as dimensões humanas - correremos o risco de nos tornamos seres patéticos em busca de uma perfeição puramente idílica e neurótica. Um esforço hercúleo, sobre humano, que oprime tanto os companheiros de causa, de sonhos, ou nossos pacientes. Adoro a metáfora de Dom Quixote de Cervantes. Quem não nos ama, estará pouco interessado. 

É estruturante saber que somos imperfeitos, cheios de furos e falhas (diferente das falhas de caráter, tá?) - e que não daremos conta de todos os encaminhamentos, que esqueceremos, que atrasaremos, que cansaremos, que teremos preguiça... Que temos limites. 

Ninguém está nessa vida para reviver o titã Atlas, com o castigo de Zeus sobre seus ombros para sempre. 

Tenho asco, digo, cansaço de quem se propõe apenas à perfeição das ações, ao invés da perfeição da consciência da alma. 

Para os que acreditam em Deus, penso que acreditam que, apesar do livre arbítrio, algo já está escrito ou determinado. Portanto, não é muito sábio tentar barganhar ou ludibriar o deus que lhe anima. 

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"Quem, de boa fé e com sinceridade, cultua outros deuses, por não me conhecer, o Eterno, este me cultua, e o perfume do seu sacrifício sobe ao meu trono, e eu o aceito." Krishna

18 maio 2016

Quando o teto é o horizonte 
E já faz tempo que seus olhos se abriram
Parece que seus desejos diminuem
E que a fantasia é imensidão. 

Vejo a moldura inferior dos quadros
E o dardo atirado não se fixa 
Estou deitado e ajoelhado...
Para os Òrìsàs baixando minha crista

Quando o teto é insidioso 
E sua alma já deu lugar à calma
Memórias me drogam, corrompem o status, 
E somente o som do vinil me salva. 

Quando o teto deixa de ser tudo, vira espelho.
Vejo-me mais nas teias de aranhas 
Uma armadilha, a velhice e total letalidade 
Vivo mosquito, vivo quem abocanha.  

Quando o teto passar a ser tudo, vira espelho.
Vejo-me na luminária, no entalle de gesso quase clásico 
Vejo delicadeza, estética e adaptação
Diminuo os analgésicos para tentar ser prático.  

16 maio 2016

ConCauby


Cauby, eu me lembro muito bem
Imitava sua voz a sonhar 
Com os palcos que a vida tem 

Foi então que me rendi ao violão 
Num pastiche seguia teus passos 
Numa vibe de deliciosos compassos

Se subiu, ninguém sabe ninguém viu 
Pois hoje um astro se eternizou ...
Por quantas veredas musicais me guiou ! 

E agora eu daria uma milhão por Cauby em meu violão.

Brilhe!

14 maio 2016

14 de Maio

Abre a porta:
o senhor é ... 
Sim!
Eu sou quem te cuidará (!)
Deus! Quem manda essas criaturas de branco?
Abre porta 
Fecha porta
Já não tenho senha ou envergadura  
Tenho um talho
Tenho um rasgo e uns fios transparentes
Seiva que entra 
Morte que sai 
Toalha 
Roupão  
Papagaio 
E um tanto de desconhecidos a me pegar. 
Nem nas fantasias fui tão promíscuo. 
Talvez sim, mas com prazer. 
A dor
A fisgada 
A novalgina e a briga pela morfina. 
A negociação entre o micropoder e a suposta adição. 
As cinzas do meu sorriso
O cansaço do sol 
É a noite sempre atrasada. 
A madrugada vilipendia e atormenta. 
Água, mais água e mais estranhamento.
Vamos andar, diz um
Vamos comer, diz o segundo
Só uma furadinha, fala o perverso
Quer ajuda?
Dói
Não posso lhe ajudar. 
Ah, foi a farmácia que atrasou!
Não, foi a gerência que não liberou. 
Ah, Foucault venha me valer! 
Sartre, por que desapareces?
Freud, seu porra, preciso de você! 
Abre a porta 
O senhor é...
Sim, sou eu! 
E meu namoro à distância com o teto é novamente interrompido.
Abre-te sésamo 
Preciso resgatar minha autonomia
Antes de fazer parte dos ladrões de imagens. 
Pressão sanguínea 
Batimentos de crenças
Termômetro de decepção 
Imobilidade calculada no taxímetro dos botões da maca. 
Visitas
Sorrisos 
Não fique aí parado! 

10 maio 2016

Morada

Talhado 
Corrige
Burilado
Retira o que é sombra e o que é casca. 

Aberto
Viola
Exposto 
Dar a ver, dar a dor, deu, à tudo, tempo. 

Aberto
Mal feito
Degredo
Marginais do sorriso branco bem mantidos. 

Esculpido 
Molde
Reciclado
O alicerce, a viga, um corpo revisitado

Acordado 
Droga
Renascido
Aprendendo a reaprender e a me (o)posicionar.

23 abril 2016

Ẹlẹ́mọ̀ṣọ́

É Sàngó que desfaz as pedras de mim. 
É esse Òrìsà que me observa ao cantar.
Mas na gira-do-mundo,  flerto com todos;
Marrom, verde e azul nas guias do pescoço...
Essa tríade que me tange no roçado da vida.

Não preciso vestir rechilieu ritualística - 
Se visto calça, saia ou aṣọ àríyá, não faz questão.
Todas as ayabas me rodam, perfumam e me deixam no salão
Sempre com os abẹbẹs, ọfàs e florins. 
Aos pés das Ìyás sou parte do canto de alegria, dor e gratidão. 

No meu girar, por desígnio de Olódùmarè, tenho um ọ̀bẹ. 
O barracão é uma peleja, é uma caçada - brilho de metal. 
A Ìyá ligeira enxuga meu rosto e me faz sorrir...
São tantas delas para trazer ordem e sabedoria. Ẹ̀rọ̀.
São tantos de mim no Ilè - tempos de acreditar, segundos de reprimir.

É Sàngó que desfaz as pedras de mim. 
É esse Òrìsà que me observa ao cantar.
Mas sou do ṣiré, flerto com todos;
Marrom, verde e azul nas guias do pescoço...
Essa tríade que me tange no roçado da vida.

E uma das mães (a que me fez sonhar) me entregou um àtòrì; 
Com as águas comecei a me cobrir
Quero ijèṣá, aruá, milho branco e montar no ìgbín. 
É do opa òṣooro que trago na pele que retiro verso, fé e força - 
E o Alá faz o ẹní para sonhar depois de acordar. 

Foi numa tina de alfazema que primeiro senti o àṣę...
E no roçar das folhas em meu corpo, conheci meu orí. 
- Ewé. Ewé, màrìwò... Gritavam meus ancestrais idílicos 
O cata-vento multicor das matas coa meu corpo em infusões e tinturas...
E com as folhas de pitanga e abre-caminho me incenso e lavo passos e palavras. 

É Sàngó que refaz o fogo e a rocha mim. 

01 abril 2016

2016.I

Quantos sentem a falta do corpo "completante" ao lado?
Quando são os corpos certos
Que trarão desatino, instabilidade e o nirvana na exata medida?
Quantos estão no paralelo 30 ou em outra fronteira?  

Quantos pares conseguiram erguer pontes? 
Quantas conseguirão manter as suas flores, 
Espalhando perfume, estética e delicadeza - la vie en rose
Já são tantos corações desde que ela deixou o 12°...

Bah, fiquei preso ao calendário.
Cuidando com solidão de meu cambicho.
Mateando para não virar um matungo,
Podando a falta para que não se faça numa velha macanuda. 

Arre!, esse delírio de 'quantos?'
Quantos há em mim que sustentam o desejo? 
Quantos podem manter a qualidade dos longínquos olhares, 
E, ainda que cônscios, erguerem-se pela manutenção da saudade?

Todos de mim. 

31 março 2016

7 meses e algumas lágrimas

Vontade
Dá e passa 
- dizem. 

Já a Saudade
Desafia a vontade
Não Disfarça. 

A Saudade 
É dádiva 
É Vida em seu lugar. 

A Saudade
É a lágrima pulsante
De Ausente olhar.

A Saudade 
Faz trio com os versos
E Timidez pra te mostrar.

A Saudade 
Desfaz-se com o toque 
Dos que Preservam o caráter. 

A Saudade 
É a justa medida 
A Clarividência, a aposta, a alma permitida. 

A Saudade 
Dá nova cor às promessas
Ao Tempo em que salvaguarda as juras
[de amor].

10 março 2016

Homem-ao-mar

Vista p'ro mar 
Vestir-se do mar 
Despir Iemoja
De tudo sarar 
Por obsequioso mirar
Faça-me cantar
Para que a fé 
No meio da kalunga escura
Volte a me encontrar. 

26 fevereiro 2016

Eternal Flame

Ainda faltavam vinte e poucos minutos para Javier entrar para sua sessão de análise. Não era nada muito grave, um pouco histérico, um traço de TOC, mas nada que comprometesse a vida, salvo por ser dado a mergulhos profundos em águas agitadas... Assim como ao amor. 

Já era a sexta ou sétima vez seguida que Javier ouvia Eternal Flame em menos de meia hora. Desta ele não se cansava, ao contrário, alimentava-se da lembrança daquele amor puro, ardente e inocente. O nome Roberta nunca saíra de sua mente. 

"Close your eyes, give me
your hand, darling
Do you feel my heart
beating?
Do you understand?
Do you feel the same?
Am I only dreaming?
Is this burning an
eternal flame?"


Era como se o Amor tivesse sua viçosidade restaurada dentro dele. As carapaças de tantos desencontros, como que por milagre das relações, começavam a  sumir, cedendo o espaço que, de fato e por direito, pertencem às emoções que foram sacramentadas embaixo  de uma escada escura (primeiro leito nas horas de um verão que não acabará).

Quantos anos já haviam passado? Quantas cartas sentimentais foram enviadas? Quantas juras de amor? Sim, Javier é um romântico irreparável. Naquele dia, que fora o primeiro melhor-dia-de-sua-vida, nada no universo (nem o próprio Deus) poderia dissuadi-lo que que Roberta (branca, estatura mediana, longos quatro anos mais velha - mas nem tão experiente, e cheia pintas na face e no colo), seria seu primeiro grande amor.

A ingenuidade das mentes e dos corpos era algo lindo; lindo como a canção que ele escolhera para representar o seu amor mais profundo. Na verdade ele não escolheu, a música tocou em sincronia com o primeiro trocar de olhos, na beira da piscina após uma aula de hidroginástica. Javier é um obsessivo com detalhes? Não. Javier amou. Javier amou como se nunca fosse completar dezesseis anos. Estava feito o primeiro risco de Javier. Uma tatuagem metamusical. 

Aproximava-se o momento mais difícil de sua vida até então: falar com ela. Não se arriscou. Ficou flertando de dentro da piscina com a mulher-do-encanto sentada na borda. Ela saiu. Javier pressentira que suas intenções poderiam naufragar se não voltasse a vê-la. 

Junto com o cair do sol ele fora para o seu chalé trocar-se para ir ao restaurante. Não parava de falar com Pedro, seu primo, daquela menina linda da tarde. Enchera o saco de todos no chalé. Perguntava se alguém também tinha presenciado aquela epifania na piscina. 

"Wise men sayOnly fools rush inBut I can't helpFalling in love with you"

Atrasou-se, como habitual, para se vestir e descer - ficou para trás. Não estava muito preocupado com isso. Não havia lugar vazio em todo seu corpo para outro pensamento. No caminho, à meia luz, que leva ao restaurante ele observa que alguém vem atrás dele. Vira-se e vê um trio conversando. Logo o trio vira uma: shorts branco e camiseta amarela, cabelos molhados, sandálias havaianas - era ela. Não foi mais uma troca de olhares, mas um mirar demorado que constrangera os demais, deixando-os sozinhos entre a possibilidade de um beijo e seguir o caminho de todos. Javier e Roberta souberam fazer suas almas se encontrarem num beijo, precedido apenas pelas palavras gritadas pelas retinas vidradas. 

Depois de décadas sua espinha ainda sente o frio congelante das verdadeiras emoções; os pelos eriçam só de ouvir a introdução da música deles, ou seria só dele agora?

Quanto de amor cabe num final de semana? Quanta entrega cabe nas linhas de uma carta? Ele ainda sabe o endereço dela de cor. Javier não se perguntava essas coisas de forma direta, mas seu coração adulto, naqueles dias de intensa nostalgia, estava confuso com tantos cálculos. Amar tanto em tão pouco tempo; descobrir tudo nos versos de uma música gringa que ele mal entendia; passear numa ilha de sentimentos por amadurecer chamada Javier e Roberta.

Javier descobriu, depois que as cartas cessaram, que Roberta virou uma espécie de amor platônico. E eles, inconscientemente, deixavam isto posto. 

Eles casaram e tiveram outras vidas. Surgiram outras musicas e outros amores... Mas Javier não pode evitar sentir tudo isso, de novo e de novo e de novo, cada vez que se lembra, ou que a vida o lembra de como é maravilhoso ser de alguém por vontade e desejo, dele e do Universo. 

"There's a place for us
Somewhere a place for us
Peace and quiet and open air
Wait for us
Somewhere"

* The Bangles 
** Leonard Bernstein / Stephen Sondheim
*** Hugo Peretti / Luigi Creatore / George David Weiss

25 fevereiro 2016

Na mosca.

Às vezes o único erro é não ter uma borracha 
Não ter raios, espada, fé ou ilusão, 
Ou mesmo um empoeirado e indecente mata-borrão 
Para suprimir o engano de tantas construções de engano. 

Nunca foi óbvio que te perderia 
Essa cena não é escrita, nem vivida a contento ou ao cabo. 
Teve sempre uma luz inoportuna na nossa coxia 
Para lembrar que o drama não era vida, mas que era real. 

Às vezes o crasso do erro é não ser fulminante 
E dilapidar sonhos antes de desejos
E segregar lágrimas, descarrilando emoções primevas 
Para confundir um leve movimento de lábios com o sorriso. 

Às vezes o único erro era não ter uma borracha;
Eu queria dizer: apagar e recomeçar! 
Apagar, a-pa-gar, à pagar...
Não deve haver sobrescrita na tatuagem que a alma se infringe. 

Sou de errar, mas sou contraditoriamente de acreditar 
Sou de apagar, de deixar limpo, de clarear,
Mas sou desgraçadamente de remoer e recordar 
Legitimador e (auto)algoz das ilações derradeiras dos passantes 

Às vezes o único erro é não ter uma borracha. 
Desde a infância que não as trago no bolso. 
Não escrevo à tinta ou à lápis hoje em dia 
Mas com drogas psicoativas, discussões  e filmes de arte. 

Às vezes o erro é ficar masturbando o próximo erro. 

23 fevereiro 2016

2016 e nada mais

Diziam que ele surgia insipiente 
Crescia em pungentes espirais 
Depois ia morrendo 
Fino, quase uma picada 
De mosquito insistente 
Se usava muito, não é?
Mas também me lembro
Como casaco underground dos oitenta
Ou calça suja justinha e colorida dos setenta
Mas o que me recordo, com alguma profundidade,
Foi a tristeza aprisionada dos noventa 
Quase carpideiro
Mas me digam, sobreviveu aos anos dois mil? 
Nunca mais ouvi falar 
Só me lembro do zunido zombeteiro... 
Houve um louco
Desses que admiro, por verdade e caráter, 
Que disse outro dia " hoje ele jaz nos grotões,
Mas já não há mais aventureiros".
fiz que não entendi, e ainda me questiono... 
Dei bom dia e me despedi desse moço 

30 janeiro 2016

Nymphalidae

Já não tem mais tantas páginas para escrever,
Nem precisa reclamar por mais horas em sono 
Ou usar a yoga para vestir a comoção.
Já não tem mais tantas cenas para atuar. 

Serei alheio às lágrimas (próprias talvez), 
Mesmo com as dores da imanência, 
E arredado dos discursos inflamados 
Nas insones tardes das quintas-feiras.

Afinal, já não há tantas páginas para ler,
Nem serão necessária evocações mitológicas 
Ou se entediar entendendo meus grafismos...
Já não tem mais cenas para atuar! 

Mas por que você quer ler minha cartas?
Por que você que aprecia tanto a letra
E despreza tudo o que hoje, e só hoje, entendi como espírito?
Por que você você que escrever minha crítica, 
Expor sangue marginal 
Aprisionar a minha tagarelice  
Estancar o veio das loucuras
(Num repto colossal),
Se já não há mais cenas para atuar, montar ou dirigir?

Tchau! 

Tornar-me-ei uma borboleta de asas transparentes....