27 julho 2009

Ao Nada


escrever pelo nada
pela desvontade e pelo desgosto
escorrendo pelo esgoto dos sentimentos
palavras que são mudas e claudicam
trôpegas se amontoam num imperativo
ofertando o único caminho à primeira razão
escrever pelo nada
nada dizer, nada querer, nada fazer... não morrer
nada comer
mas digerir o nada dentro de mim
com atos em falso e passos reais

escrever pela falta de inspiração
por um amor ou uma dor que, de resto, só faltam
por um desejo quase morto em si mesmo
pelo objeto, que de pirraça, cai.
escrever pela falta
pelo que não é mostrado ou dito
pelo que não sai e incomoda
pelo que comprime, aperta, afoga...
prende e liberta o corpo
solto, desprotegido, desvalido

escrever pela obrigação
pelo zelo ao nome e à condição
pela dignidade que sobra aos que tudo levaram
escrever como tarefa árdua
com a determinação de um bom vaqueiro
e a delicadeza aristocrática de um dândi
escrever pelo prazer
pelo impossível de não o fazer
pela necessidade de esquecer
e dar ao mundo o que não quero ter.

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