11 outubro 2026

eu não olho apenas nos olhos 

como diria o poeta Buarque 

eu fito a boca 

com indiscrição até 

o movimento dos lábios 

derramando o mundo do outro

o que se deve ou seria 

é de lá que saem os medos 

os desejos as injúrias os afagos

a mentira dos aflitos 

a verdade dos que sonham

os olhos não confundem 

mas a boca entrega

o leve tremor do beiço 

a língua inquieta 

há muito na cavidade bucal 

cabe até um céu 

se é assim, permite um universo 

é de onde saem as palavras 

por isso demoramos a falar

juntar os vocábulos 

lastro de meu existir. 


29 setembro 2026

o amor não é para os comedidos 

ele laça toda vida 

não respeita relógio ou quilometragem

autopoiese em estado bruto


que diferenças?

quando o sussurro e o cheiro

tomam a cena do drama

nem o diabo se distingue de deus 


não há decepção se há entrega 

não há susto se há firmeza 

como o mar profundo 

também fica rasinho vez ou outra 


não deixe as paredes em branco 

rabisque de azul ou vermelho 

escreva o seu paladar 

pinte tudo aquilo que ainda não sentimos 

26 setembro 2026


Ela me deu sua qualquer coisa como alma

Pediu que eu plantasse sob meus olhos

e debaixo de uma pedra

Uma espécie de mandinga estelar

Mas que daria frutos parecidos com fênix e unicórnios

Duvidei.

Nasceram ramos de jasmim pelos meus braços

Nunca fui tão perfumado e sereno.

Ela me aparava os galhos e os cabelos

A pedra mudava de cor e tamanho aos meus olhos

Por onde sairia uma ave do paraíso ?

Como ela me deixava feliz, epifânico

Eu não me lembrava das coisas terrenas

Sabia apenas de magias e esfinges

Flores e luas e reencontros e metamorfoses e pontes

Ela me cuidava… isso é amor em estado de existência

Eu, riacho, a invadia

E levava comigo uma parte daquilo que era qualquer coisa como o seu sol

24 setembro 2026

Escrevo para evitar vícios 

Para não perder o tino

E para construir o agora 

Único bem que carrego

Escrevo versos 

Verdades e mentiras 

Mas só coisas de bondade 

Escrevo para me tocar 

Para me sentir profundamente 

Chego a tocar meus pulmões 

Com uma palavra mais afiada 

O coração é todo retalhado 

Não há cola para o picotado 

Escrevo e não me vicio 

Ouço a música de Nietzsche

Mas não sei dançar 

Só rabiscar fenômenos

E arriscamentos

14 setembro 2026

se o amor se divide

o que o junta?

a lealdade dos corpos

a solidez das promessas

a crueza dos sonhos

ou a cama devidamente

arrumada e esticada?

a ruína é a estrada para transformação

(acabei de ler na legenda dum filme)

se o amor se divide

faz sentido se juntar?

retransformar em um o que se fez dois

o que é essa matemática?

transformar a borboleta em lagarta outra vez?

o que viver sendo dois

quanto se perde sendo um

o que é isso de ser no amor

um sendo dois - dois que nunca foram um

um que sempre foi um - dois que nunca são um existir

se o amor se divide

é justo ou inverídico rearrumar?

o que decide isso?

quem discutiu isso?

o que pode se haver nisto?

27/08/26

11 setembro 2026

duas pessoas se enlaçam 
por telefone
dados binários 
por interesses do destino
por sonhos de meninos
pela autoridade do pôr do sol 

duas pessoas se ligam 
o primeiro raio de sol que rasgar o universo 
queima um único poro 
nos dois rostos que se uniram 

num tipo especial de amálgama 
entre o porto e a ilha 
das docas ao mar aberto 

é verdade, mas também vertigem 
- fotografa o vero segundo 
que luzes insistem no toque
na delicadeza antropofágica
30/08/2026

10 setembro 2026

sinto que o amor é suporte é faca de kit corte e densidade de todos os portes é uma barganha com a sorte Boa falta norte sobra símbolos de vida e morte não que isso realmente bote mas também não é algo que que se Dêpot Para o amor já fiz vários intensos quase virei ou somos todos detentos desse bolo quase não sobra fermento o corte seco é violento sido que o amor é algo tortuoso rio caudaloso terreno pantanoso um golpe pre sem aguento Calor de fogaréu mas não me arrebento

28/08/26

23 julho 2026

A vida nos impõe intervalos de solidão 

O labor se apresenta 

Os livros reinvidicam

Cuidar dos filhos

Contemplar o mar 

Apreciar as lagartas

Escrever um poema

Me desnudar

Logo volto a te encontrar 

Tão rápido quanto o sol se recolhe.

Logo o mar retorna

As borboletas voam

O letras se emancipam. 

Os filhos nos despedem… 

É só um piscar de olhos

Não mais.

Nada mais que isso. 

Sob o risco de endurecer as pálpebras 

Sob o risco de me afogar 

Neste poço de tantos sentidos 

Neste mundo de silêncios 

Neste canto onde nem toda luz chega.

Décio Plácido, 23/07/26

19 julho 2026

Caramelo salgado

Brigadeiro trufado

O nosso amor 

Servido num pires 

Melando os dedos

Adoçando a quem se mela dos lados 


Tentei evitar o açúcar 

Como às outras drogas 

Mas me trouxestes um beijinho

Carregado no coco

Que por amor comi uns oito 

Que por amor guardei meus medos 


Sim, nossos nomes doces

Sim, calda engrossando…

Um cozimento lento, atento

Na panela, na terrina, na bacia

Esse doce não cabe em qualquer lugar

É proveito de corações desfeitos. 


Caramelo salgado

Um sentir nada gourmetizado

Mas de ingredientes incomparáveis 

Selecionados pelo tempo - longo - da busca 

A procura que manteve seu sabor

Na certeza que jantar finda na sobremesa 

11 julho 2026


És única na minha experiência

Dos meus encontros e retroencontros 

Não trazes nem poeira

Novinha em folha [que me perfuma]

És uma dádiva 

Uma supernova em meu pequeno Universo

Chama

Me chama

Me incendeia e me levas pra junto de ti.

Nada igual foi visto

Nadinha nesses anos de busca

Uma longa pandemia de desencontros.

Vou acender um incenso 

Algo que represente a gente agora

Bem agorinha

Queimando e perfumando 

Existência se dá em reconhecimentos

Em saber que os olhos já se ouviram 

Numa outra possibilidade de amor e vida juntos

Vou ascender um incenso e beber água 

Queimo 

E não viramos cinzas 

Queimas 

E adentramos em la dolce vita

Merecida por amantes e poetas. 

06 julho 2026

Na sua entrega, me lanço aos seus domínios.

Como mago / Como desbravador /  Como aprendiz

De um novo afeto

De uma nova possibilidade de existir à dois.

De um tempo de gentileza

nos olhos /  no reconhecimento /  do que já nasce como potência

como insígnia

como descanso para o amor

que há muito se pressentia

nos portos / nas veredas / nas ruas /  em todo lugar de existência…

Persisti.

Sabia que te encontraria.

Sabia como se sabe o próprio nome

como molhar é razão da chuva / E chovia!

Te reconheci porque nada fora mais cristalino

mais perturbador das conveniências

mais insinuante / mais acolhedor dos meus anseios /  mais confidente dos meus desejos

pouso para minha busca por amplidão.

Você me faz retornar ao amor.

Crédulo.

Mais !

Fiador de uma nova vida

Da beleza /  Da nobreza

Da certeza do raro encontro.

Da busca que finda.

Da alma que vibra /  Dos lábios que vertem beleza.

Meu corpo é chama

Meu espírito é colo.

Minha perspectiva se dobra a sua doce presença.

Vem!

Só amor te espera.

Décio Plácido, 02/07/2026

Mais do Mesmo Alívio!!!