com quem foi que assinei contrato
versando de amor, assim nos peitos
eu não olho apenas nos olhos
como diria o poeta Buarque
eu fito a boca
com indiscrição até
o movimento dos lábios
derramando o mundo do outro
o que se deve ou seria
é de lá que saem os medos
os desejos as injúrias os afagos
a mentira dos aflitos
a verdade dos que sonham
os olhos não confundem
mas a boca entrega
o leve tremor do beiço
a língua inquieta
há muito na cavidade bucal
cabe até um céu
se é assim, permite um universo
é de onde saem as palavras
por isso demoramos a falar
juntar os vocábulos
lastro de meu existir.
o amor não é para os comedidos
ele laça toda vida
não respeita relógio ou quilometragem
autopoiese em estado bruto
que diferenças?
quando o sussurro e o cheiro
tomam a cena do drama
nem o diabo se distingue de deus
não há decepção se há entrega
não há susto se há firmeza
como o mar profundo
também fica rasinho vez ou outra
não deixe as paredes em branco
rabisque de azul ou vermelho
escreva o seu paladar
pinte tudo aquilo que ainda não sentimos
Ela me deu sua qualquer coisa como alma
Pediu que eu plantasse sob meus olhos
e debaixo de uma pedra
Uma espécie de mandinga estelar
Mas que daria frutos parecidos com fênix e unicórnios
Duvidei.
Nasceram ramos de jasmim pelos meus braços
Nunca fui tão perfumado e sereno.
Ela me aparava os galhos e os cabelos
A pedra mudava de cor e tamanho aos meus olhos
Por onde sairia uma ave do paraíso ?
Como ela me deixava feliz, epifânico
Eu não me lembrava das coisas terrenas
Sabia apenas de magias e esfinges
Flores e luas e reencontros e metamorfoses e pontes
Ela me cuidava… isso é amor em estado de existência
Eu, riacho, a invadia
E levava comigo uma parte daquilo que era qualquer coisa como o seu sol
Escrevo para evitar vícios
Para não perder o tino
E para construir o agora
Único bem que carrego
Escrevo versos
Verdades e mentiras
Mas só coisas de bondade
Escrevo para me tocar
Para me sentir profundamente
Chego a tocar meus pulmões
Com uma palavra mais afiada
O coração é todo retalhado
Não há cola para o picotado
Escrevo e não me vicio
Ouço a música de Nietzsche
Mas não sei dançar
Só rabiscar fenômenos
E arriscamentos
se o amor se divide
o que o junta?
a lealdade dos corpos
a solidez das promessas
a crueza dos sonhos
ou a cama devidamente
arrumada e esticada?
a ruína é a estrada para transformação
(acabei de ler na legenda dum filme)
se o amor se divide
faz sentido se juntar?
retransformar em um o que se fez dois
o que é essa matemática?
transformar a borboleta em lagarta outra vez?
o que viver sendo dois
quanto se perde sendo um
o que é isso de ser no amor
um sendo dois - dois que nunca foram um
um que sempre foi um - dois que nunca são um existir
se o amor se divide
é justo ou inverídico rearrumar?
o que decide isso?
quem discutiu isso?
o que pode se haver nisto?
27/08/26