eu não olho apenas nos olhos
como diria o poeta Buarque
eu fito a boca
com indiscrição até
o movimento dos lábios
derramando o mundo do outro
o que se deve ou seria
é de lá que saem os medos
os desejos as injúrias os afagos
a mentira dos aflitos
a verdade dos que sonham
os olhos não confundem
mas a boca entrega
o leve tremor do beiço
a língua inquieta
há muito na cavidade bucal
cabe até um céu
se é assim, permite um universo
é de onde saem as palavras
por isso demoramos a falar
juntar os vocábulos
lastro de meu existir.